Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação  Fale Connosco
Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação Bem-Vindo - Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação
Executar Procura
     

Doação de órgãos: Em luta pela vida 

Portugal é um dos melhores países do mundo na área dos transplantes, facto que orgulha todos aqueles que se dedicam a esta actividade e que enche de esperança os inúmeros doentes à espera de um transplante. Este mês entramos na realidade de quem lida diariamente com a morte para poder dar vida.

Texto Vânia Machado

A doação de órgãos é uma forma peculiar de testemunho da caridade. Numa época como a nossa, com frequência marcada por diversas formas de egoísmo, torna-se cada vez mais urgente compreender quanto é determinante para uma correcta concepção da vida entrar na lógica da gratuidade. De facto, existe uma responsabilidade do amor e da caridade que compromete a fazer da própria vida uma doação aos outros, se quisermos verdadeiramente realizar-nos a nós próprios. Como nos ensinou o Senhor Jesus, só aquele que doa a própria vida a poderá salvar (cf. Lc 9,24).

Bento XVI, Novembro 2008

 O ano de 2008 registou um aumento significativo de dadores cadáver detectados nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Este aumento traduziu-se em 283 colheitas de órgãos, um aumento de 12,5 por cento em relação ao ano anterior. Portugal passou de uma taxa de 23,9 para 26,7 dadores por milhão de habitantes. Estes números irão fazer com que Portugal suba ainda mais no global da Europa, onde ocupava em 2007 o quarto lugar. Maria João Aguiar, coordenadora nacional das Unidades de Colheita de Órgãos, Tecidos e Células deseja alcançar no próximo ano os 30 dadores por milhão de habitante. Para tal é necessário aperfeiçoar a rede nacional de colheita. Criada em Maio de 2008, esta rede está agora no terreno e há que esperar os resultados. “A rede [que existia] não era tentacular, era regional. Desta fizemos sair tentáculos para todos os hospitais onde há cuidados intensivos e onde há possibilidade de haver um potencial dador e neste momento temos um médico, que é o coordenador hospitalar de doação, em todos os hospitais onde há hipótese de haver uma pessoa que entra em morte cerebral e que tem como funções a detecção de potenciais dadores. Acredito que vamos ver os resultados deste trabalho com mais dadores detectados, mais órgãos recolhidos, mais órgãos transplantados, mais vidas salvas”.

Porém, o grande problema é que o número de pessoas que esperam por um órgão é em todo o mundo superior à oferta existente. “Num estudo de 2007 sabia-se que morriam dez europeus por dia em lista de espera para um transplante”, explica Maria João Aguiar.

De notar que nem todas as pessoas que morrem podem ser dadores, mas sim apenas uma percentagem muito pequena. As pessoas viveram toda uma vida, foram sujeitas a agressões e têm alterações nos seus órgãos incompatíveis com a sua transplantação.

Consciencialização social

Aperfeiçoada e agilizada a rede nacional de colheita há que lidar com outro problema que diz respeito a cada um de nós e à responsabilidade que temos como membros da sociedade. Por lidar com algo difícil como é a morte, este é um assunto ao qual fugimos e tendemos a fazer de conta que não nos diz respeito. Este sentimento é profundamente erróneo, dado que de um momento para o outro a realidade da doação de órgãos nos pode bater à porta da forma mais inesperada possível. Podemos perder um ente querido e este ser um potencial dador e ajudar alguém a sobreviver ou, por outro lado, podemos ser nós próprios a precisar de um transplante. A imprevisibilidade da vida obriga-nos a ser cidadãos informados e solidários.

A lei portuguesa, no que concerne à doação de órgãos, pressupõe que todos somos dadores e que quem não o quiser ser se deverá inscrever no Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA), disponível em todos os centros de saúde. Actualmente somente 0,3 por cento da população portuguesa está inscrita no RENNDA. “Eu acho que a sociedade portuguesa é solidária e percebe que a doação de órgãos é um gesto de amor. As pessoas que optam por não ser dadores não perdem o direito a ser transplantadas. Há uma certa magnanimidade nesta lei. Ela diz que se você não quiser ser solidário não seja, mas mesmo assim se precisar de um órgão nos vamos dar-lhe. Eu acho que é pela positiva que se educa e esta lei é pela positiva. Eu penso que só a desinformação e a falta de as pessoas pensarem noutras coisas que vão além do seu dia-a-dia é que podem levar a que existam fantasmas no que concerne a este assunto”, afirma a coordenadora nacional das Unidades de Colheita de Órgãos, Tecidos e Células.

Consentimento presumido

Apesar de a lei permitir que a vontade seja expressa, é importante que este assunto seja abordado em vida com os nossos familiares, retirando-lhes o peso que podem vir a sentir na hora da morte por nunca terem falado sobre o assunto. Quando uma pessoa entra em morte cerebral as equipas hospitalares competentes para o efeito abordam as famílias e explicam-lhes o que se está a passar. “Primeiro é fundamental que as pessoas entendam o que é a morte cerebral, depois dizemos às famílias que consultámos o RENNDA e que o seu familiar não está inscrito e que, portanto, é um potencial dador e que vamos proceder à colheita de órgãos”, explica. A lei vigente atesta assim o consentimento presumido por se acreditar que, dada a nossa tradição moral e social, o normal é que sejamos dadores. Maria João Aguiar explicou à FAMÍLIA CRISTÃ que cada vez menos famílias se opõem à colheita de órgãos e que as pessoas de uma forma geral estão informadas e percebem que esta é uma atitude nobre quer para quem partiu, quer para os que assistem a essa doação. Do seu contacto com as famílias em luto,

Maria João Aguiar acredita que a doação as ajuda a encarar o luto e a aceitar a morte de outra maneira ao pensar que naquele mesmo dia há alguém que vai viver graças aos órgãos do seu familiar. “Temos que ver que o destino dos órgãos são dois: decomposição, que não tem nada de nobre na minha opinião, e outra coisa que é viver noutras pessoas, dar a outros, através de uma parte de uma pessoa que nos é querida, a hipótese de continuar a viver. E portanto eu sinto profundamente que ajuda muito as famílias em luto perceberem que, por exemplo num caso de um jovem, que esteve cá tão pouco tempo e não deixou filhos, deixou só recordações a si próprios, vai ser recordado através das pessoas que tem o usufruto dos seus órgãos. Eu acho que se as pessoas pensarem nisto têm algum significado para as mortes que são sempre estúpidas”.

A experiência recente tem revelado que a sociedade acredita nos benefícios da doação, consideram-na um acto de amor e que o praticam, também porque acreditam que todo o processo é feito com transparência, equidade e justiça social. A este propósito a Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação (ASST) está já a construir um registo que irá permitir aos utentes consultar o seu lugar na lista de espera.

Em Novembro do ano passado, no seu discurso no Congresso Internacional promovido pela Pontifícia Academia para a Vida sobre o tema da doação de órgãos, o Papa Bento XVI defendia também que “o acto de amor que é expresso com a doação dos próprios órgãos vitais permanece como um testemunho genuíno de caridade que sabe olhar além da morte para que vença sempre a vida. Do valor deste gesto deveria estar bem consciente quem o recebe; ele é destinatário de um dom que vai além do benefício terapêutico. O que recebe, de facto, ainda antes de ser um órgão é um testemunho de amor que deve suscitar uma resposta de igual modo generosa, a fim de incrementar a cultura da doação e da gratuidade”.

Transformar a morte em vida

Lidar diariamente com esta realidade é difícil, mas é o preço a pagar por quem se dedica a transformar a morte em vida. Abordar as famílias em luto não é fácil e os técnicos partilham a sua dor. “Nunca se endurece nesta abordagem. Não há maneiras, não há carapaças para chegarmos a uma família em luto e dizer que estamos ali para colher os órgãos. Todos sofremos e choramos com as famílias, mas depois também temos a recompensa de ver “renascer” os doentes transplantados”, desabafa Maria João Aguiar. A enfermeira Ana Paiva, também ela transplantada [ver caixa] confessou-nos que jamais se poderá esquecer das palavras de um doente que aguardava um transplante cardíaco e que lhe disse: ““Hoje está a chover, pode ser que tenha a sorte de ocorrerem muitos acidentes e alguém morra e eu possa sobreviver”. Como profissional é duro ouvir estas palavras”. Para quem acompanha esta realidade de perto a alegria de uns traduz sempre a profunda tristeza de outros.

Doação em vida

Sendo certo que morte e a perda serão sempre sinónimo de dor e sofrimento, há que fazer um esforço para desmistificar ao máximo as questões, limar as arestas na medida do possível e isso só se consegue falando em família sobre o assunto, discutir posições e opiniões para que todos estejamos verdadeiramente informados sobre o benefício e a importância da doação de órgãos.

A doação em vida é também uma realidade possível e que existe cada vez mais, tendo registado no ano passado um aumento de quase 40 por cento. Se temos um familiar ou amigo que precisa de um órgão para viver ou melhorar a sua qualidade de vida e nós temos dois e podemos dispor de um, porque não? “Não podemos ou não devemos virar costas ao sofrimento daqueles que nos são próximos e a quem nós podemos ajudar. Uma das opções será ser dador. Podemos fazê-lo pelos nossos familiares ou amigos sem prejuízo nenhum para a nossa saúde”, afirma Maria João Aguiar. É importante que as pessoas decidam em total liberdade se querem ou não sê-lo, mas igualmente importante é saber que há estudos que comprovam que no seguimento da doação não há problemas para a saúde do dador e que, por serem mais seguidas, vivem até mais anos do que os não dadores.

A doação em vida acarreta ainda outras preocupações de forma a prevenir todas as técnicas ilícitas associadas a esta prática, e totalmente condenadas pela comunidade transplantadora.

Perante uma pessoa que quer doar em vida o seu órgão há uma série de passos a seguir para assegurar que está informada, que não está a ser coagida de alguma forma e que o faz apenas pelo bem e não irá receber nenhuma remuneração. A nova lei (Lei n.º 22/2007, de 29 de Junho) permite que qualquer pessoa, como cônjuges ou amigos, seja dador de órgãos em vida, independentemente de haver relação de consanguinidade. A doação em vida de rins é a mais comum.

A VIDA DEPOIS DO TRANSPLANTE

Ana Paiva, insuficiente renal crónica, 48 anos, transplantada em 2008

“Estive em lista de espera pela primeira vez dois anos e pela segunda cerca de nove meses.

Em Novembro de 2006 fui convocada para transplante renal nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), mas vi-me recusada em virtude da detecção de uma imagem pulmonar suspeita de tuberculose pulmonar. O sentimento que nos percorre e acompanha quando estamos a um passo de ser transplantados é de revolta. Tornam a fazer-se as mesmas perguntas que se fizeram quando da entrada em diálise. Porquê a mim? Será que não tenho sorte nenhuma? Será que Deus se esqueceu de mim?

Em Setembro de 2008 fui contactada pelo HUC, pois havia um órgão compatível. O sentimento que me percorreu quando recebi aquela belíssima notícia, ainda hoje, não sei como descrevê-lo. A minha vida após transplante, e decorreram apenas cinco meses e meio, é agora completamente diferente: é como se tivesse RENASCIDO!

O facto de me “livrar da máquina”, a sensação de liberdade que experimentei, que poderei fazer algumas coisas que pensava já não poder concretizar, constitui um sentimento de nos tornarmos a sentir gente”.

Catarina Aguiar, 24 anos, transplante hepático aos 14 anos

“Foi-me detectado um problema de fígado às 24 horas de vida. Desde cedo soube que teria de ser submetida a um transplante hepático. Em Coimbra, consultámos o Prof. Dr. Linhares Furtado, que nos informou que já se realizavam transplantes pediátricos em Portugal, com taxas semelhantes às internacionais, e que o meu caso era ‘simples’. Estive seis meses em lista de espera, até ter sido chamada pela primeira vez, mas o fígado que iria receber tinha um problema e acabei por não ser. Fui novamente chamada em Novembro de 1999 para ser efectivamente transplantada. Uma das coisas que mais me alegra é pensar que se sobrevivi a um transplante, então vou sobreviver a tudo. Os transplantes podem aparecer na nossa vida quando menos se espera. Seja porque alguém teve um acidente, seja porque nasceu com uma doença e que terá inevitavelmente fazer um. Pode acontecer a todos e acho que é isso que as pessoas não pensam.

A quem possa estar a passar pelo mesmo que eu já passei gostaria de dizer que tenham esperança e que nunca desistam. Pensem que se este desafio lhes foi posto a eles é porque conseguem ultrapassá-lo! Têm que ter força e não desanimar”.

Abril 2009

Texto original - Adobe Acrobat - 11.817 Kb

Família Cristã - www.familiacrista.com